Todos já assistimos a espetáculos de crianças ou adultos não-profissionais onde, além de um vislumbre esporádico de graça natural ou um momento fugaz de espontaneidade, pouco ou nada havia capaz de redimir a apresentação. Os atores podiam estar até “expressando-se a si mesmos”, mas o faziam ignorando a platéia e a realidade teatral.Em vista disso, listamos algumas das assim chamadas qualidades amadorísticas de atores jovens e inexperientes. O propósito não é apenas ajudar o diretor a reconhecê-las, mas também mostrar suas causas e indicar exercícios que ajudarão a liberar os atores de suas limitações.
O Ator Amador:
1. Tem medo intenso do palco.
2. Não sabe onde colocar as mãos.
3. Tem movimento desajeitado - balança de cá para lá, move-se pelo palco sem objetivo.
4. Necessita sentar-se no palco.
5. Lê rigidamente e mecanicamente as falas; esquece falas.
6. Sua expressão é pobre; apressa sua fala.
7. Geralmente repete a fala que leu erradamente.
8. Repete em voz baixa as palavras de seus colegas enquanto estão sendo pronunciadas.
9. Não cria atividade e movimentação de cena.
10. Não tem o sentido do tempo.
11. Perde “deixas”, é insensível ao ritmo.
12. Não tem sensibilidade para a caracterização.
13. “Quebra” a cena.
14. Tem medo de tocar os outros.
15. Não projeta sua voz ou suas emoções.
16. Não sabe aceitar direção.
17. Tem relacionamentos supérfluos com os outros atores ou com a peça.
18. É dependente da mobília e dos adereços.
19. Torna-se a sua própria platéia.
20. Nunca ouve os outros atores.
21. Não tem relacionamentos com a platéia.
Esta é uma lista horrenda, mas a maioria dos atores amadores (crianças e adultos) possui pelo menos dez, senão mais, destas características.
Causas e Curas
1. O medo do palco é o medo do julgamento. O ator tem medo de crítica, de ser ridículo, de esquecer suas falas etc. Quando acontece com o ator treinado, geralmente é o resultado de um treinamento rígido e autoritário.
2. A maioria dos atores imaturos usa apenas a boca e as mãos. Quando os alunos aprendem a atuar com o corpo todo (fisicalizar), o problema de onde colocar as mãos desaparece. Na realidade, nunca surgirá depois que os alunos-atores compreenderem a idéia do Ponto de Concentração, pois terão sempre um foco definido e objetivo.
3. O movimento de cena desajeitado é geralmente o resultado de direção de cena imposta. Quando o ator está fazendo esforço para recordar, em vez de permitir que o movimento surja da realidade da cena, sua movimentação será fatalmente desajeitada. Qualquer exercício de envolvimento com o objeto ajudará neste ponto.
4. O ator imaturo sente necessidade de sentar-se no palco ou balança de um pé para o outro porque está tentando esconder-se da platéia. Ele não tem foco e, portanto, está sem motivação para permanecer onde se encontra.
5. A leitura mecânica resulta na não-criação de realidade. A recitação de palavras torna-se mais importante para o ator do que a compreensão de seu significado e dos seus relacionamentos. Elas permanecem meras palavras, em lugar de transformar-se em diálogo.
6. A expressão pobre e a fala apressada geralmente são resultantes da falta de compreensão, por parte do ator, de que a platéia é um elemento integral do teatro. A expressão pobre tem a mesma origem que a leitura mecânica. No caso de haver um defeito físico real na fala do ator, serão necessários exercícios terapêuticos.
7. Falas lidas erradamente e depois repetidas palavra por palavra são exemplos de memorização mecânica, que massacra a espontaneidade. O treinamento mecânico (decorado) é também a causa de muitas outras qualidades amadorísticas. A capacidade para enfrentar uma crise no palco deve tornar-se uma segunda natureza, mesmo para o ator mais jovem. Por meio de treinamento, ele pode aprender a improvisar qualquer problema que surja - o diálogo mal lido ou falas esquecidas.
8. A memorização prematura leva os atores a sussurrar as palavras do outro. Isto ocorre quando se permite que atores jovens levem o texto para casa, onde eles memorizam tudo o que está escrito.
9. A capacidade para criar atividade, movimentação de cena e marcação interessante só pode surgir da compreensão dos relacionamentos e envolvimentos em grupo.
10. O sentido de tempo teatral pode ser ensinado. O tempo é o reconhecimento do outro dentro da realidade teatral.
11. As falhas em sentir o ritmo (assim como o tempo) acontecem quando um ator é insensível à platéia e aos colegas. Os exercícios visam a desenvolver esta sensibilidade.
12. Todos temos sensibilidade natural para criar caracterização, em graus variados.
13. Quando os atores quebram ou saem do personagem, eles perderam a visão dos relacionamentos internos da peça e também do seu Ponto de Concentração.
14. Isto significa resistência e medo de envolvimento.
15. A projeção inadequada é causada pelo medo ou pela negligência em relação à platéia.
16. A incapacidade para aceitar direção muitas vezes se origina em falta de objetividade ou comunicação inadequada entre o ator e o diretor. O ator pode não estar ainda livre o suficiente para assumir sua responsabilidade perante o grupo.
17. O ator que tem pouco ou nenhum relacionamento com os colegas e com a peça ainda está no estágio elementar do treinamento. A realização de jogos e a utilização de todos os exercícios de atuação que se referem ao envolvimento em grupo devem auxiliar aqui.
18. Quando o ator se move com hesitação no palco, arrastando-se de uma cadeira para outra, ou movimentando-se sem objetivo, ele está demonstrando medo de ficar exposto à platéia. Este é o problema central do teatro não-profissional. É importante fazer com a maior freqüência exercícios de interação grupal e estimular o aluno a sempre compartilhar com a platéia.
19. Quando os atores saem do jogo e tornam-se a platéia de si mesmos, eles estão procurando aprovação. O seu Ponto de Concentração recai sobre eles mesmos.
20. A incapacidade para ouvir outros atores é um problema vital. Significa que a meada dos relacionamentos de palco foi rompida ou não foi nunca compreendida.
21. A resposta da platéia vem para o ator amadurecido. Esteja consciente que a frase compartilhe com a platéia, este é o primeiro passo e o mais importante de todos.
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Este trecho foi extraído do livro Improvisação Para o Teatro, de Viola Spolin.
Características amadoras
Author: Varlei Xavier / Marcadores: EstudosA educação do ator
O ator em cena quase nunca interpreta o real. Está sempre imitando a realidade. Pressente o efeito que poderá produzir mais tarde. Nos ensaios, por razões múltiplas (às vezes até a falta incompreensível dos acessórios), nunca o vemos fazer o que fará na representação (um mínimo gesto, por mais elementar que seja, de forma autêntica). Acredita que daria tudo na representação, ou melhor, que na representação reencontrará por instinto o equivalente teatral. Mesmo os atores experientes, conscienciosos e ordeiros não vão nunca até o fim de uma indicação nova. Desfiguram-na ao traduzí-la. Dir-se-ia que não ousam ou simplesmente que não se "deixam tomar", como se seus corpos em cena se encontrassem fora das leis da gravidade ou do tempo. Não esquecemos de acrescentar que a comédia moderna, literária, intelectual, de conversação ou de discussão empobrece de maneira singular os meios físicos do ator.
Boas Vindas
Author: Varlei Xavier / Marcadores: qualquerOlá!